A Serva Trykella de Cemitae
- Christian Sergi Sergi
- 8 de out. de 2025
- 2 min de leitura

As colunas frias do salão ecoam sua respiração como se fossem testemunhas do fardo que ela carrega. Nasceu das mãos de um deus, esculpida em pedra fria e escura, dada como presente a Galeya, que a recebeu como filha amada acima de muitos. Como se fosse nascida do próprio ventre da mãe santa a pequena Glymoria, veio para ser inimiga, forjada no solo de um mundo distante como lâmina destinada a perfurar e sangrar o coração de sua mãe. O sangue que corre em suas veias não é o mesmo que corre em Galeya, o de Glymoria arde como ferro incandescente, carregando ódio e fome de guerra, enquanto que o sangue da deusa traz o odor do passado, a fraqueza do perdão e do amor.
Por séculos ergueu seu trono não com o ouro vil dos mortais, mas com ossos arrancados dos que ousaram negar-lhe reverência. Cada vértebra, cada fêmur, cada crânio que sustenta seu assento é lembrança de que poder não se pede: toma-se. O mármore frio não teria força para sustentar sua presença. Ela quis carne, quis sangue coagulado, quis pedras arrancadas das cavernas onde as almas gritam noite e dia. A cada degrau que leva ao seu trono, pulsa o eco de um grito, um suspiro de morte. E quando se senta nele, sente o peso do mundo inclinar-se para ouvir suas ordens e cantar seus feitos de guerra.
Ela não está só nesta ascensão. Há séculos, Trykella a serve. Uma fada de pele pálida e olhos fundos, outrora amaldiçoada pelas terras de Cemitae, encontrou na rainha vingativa a quem devotar sua imortalidade. Seus olhos ardem como brasas soterradas, sua voz é a melodia de um bosque queimado. Ela dança entre a luz e a treva, balançando seus negros cabelos arrepiados para o céu, seu rosto pintado de sombras roubadas de uma noite sem estrelas, dentes e unhas negras como breu e feitas de ferro frio. A sinistra fada caída serve e segue a mestra e sua fidelidade jamais vacilou. Em noites em que o coração, de Glymoria ainda que endurecido, ameaça fraquejar, é ela quem a recorda: “Senhora, não fostes feita para amar, e sim para pisar o orgulho de reis e esmagar o pescoço dos que lhe desafiam.”



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