A Serva Trykella de Cemitae

As colunas frias do salão ecoam sua respiração como se fossem testemunhas do fardo que ela carrega. Nasceu das mãos de um deus, esculpida em pedra fria e escura, dada como presente a Galeya, que a recebeu como filha amada acima de muitos. Como se fosse nascida do próprio ventre da mãe santa a pequena Glymoria, veio para ser inimiga, forjada no solo de um mundo distante como lâmina destinada a perfurar e sangrar o coração de sua mãe. O sangue que corre em suas veias não é o mesmo que corre em Galeya, o de Glymoria arde como ferro incandescente, carregando ódio e fome de guerra, enquanto que o sangue da deusa traz o odor do passado, a fraqueza do perdão e do amor.
Por séculos ergueu seu trono não com o ouro vil dos mortais, mas com ossos arrancados dos que ousaram negar-lhe reverência. Cada vértebra, cada fêmur, cada crânio que sustenta seu assento é lembrança de que poder não se pede: toma-se. O mármore frio não teria força para sustentar sua presença. Ela quis carne, quis sangue coagulado, quis pedras arrancadas das cavernas onde as almas gritam noite e dia. A cada degrau que leva ao seu trono, pulsa o eco de um grito, um suspiro de morte. E quando se senta nele, sente o peso do mundo inclinar-se para ouvir suas ordens e cantar seus feitos de guerra.
Ela não está só nesta ascensão. Há séculos, Trykella a serve. Uma fada de pele pálida e olhos fundos, outrora amaldiçoada pelas terras de Cemitae, encontrou na rainha vingativa a quem devotar sua imortalidade. Seus olhos ardem como brasas soterradas, sua voz é a melodia de um bosque queimado. Ela dança entre a luz e a treva, balançando seus negros cabelos arrepiados para o céu, seu rosto pintado de sombras roubadas de uma noite sem estrelas, dentes e unhas negras como breu e feitas de ferro frio. A sinistra fada caída serve e segue a mestra e sua fidelidade jamais vacilou. Em noites em que o coração, de Glymoria ainda que endurecido, ameaça fraquejar, é ela quem a recorda: “Senhora, não fostes feita para amar, e sim para pisar o orgulho de reis e esmagar o pescoço dos que lhe desafiam.”



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