O peso do instinto
- Christian Sergi Sergi
- 25 de out. de 2025
- 2 min de leitura

Neste capítulo, a história de Glymoria atinge uma das passagens mais intensas de sua jornada interior. Após dias de treinamento e exaustão, ela é submetida por Canor a um desafio que ultrapassa o limite do corpo e invade o domínio da alma. A jovem guerreira, filha da deusa Galeya, é privada de sua magia sua principal extensão de poder e forçada a enfrentar monstros com a mera força das mãos e a astúcia humana. O combate é brutal, sujo, e ao mesmo tempo sagrado: uma lição imposta para que ela reconheça a diferença entre o domínio e o descontrole.
Glymoria vence, mas a vitória é amarga. No momento em que destroça o Joaky com as próprias mãos, ela não se espanta com o sangue, nem com o horror do que fez pois já havia matado antes, e de formas ainda mais impiedosas. O que a abala é algo interno, silencioso e inominável. Uma brecha aberta em seu instinto de fera, uma fagulha de consciência que a faz hesitar. Não é culpa, nem piedade. É a percepção súbita de que há algo dentro dela algo que cresce, que se alimenta de cada gesto impiedoso e que talvez um dia a consuma por inteiro.
A sequência que se segue, banhada pelas águas de Myrnah, traduz a purificação impossível: Glymoria tenta lavar o sangue, mas o que pesa não está na pele. A recusa do vestido negro e o pedido pelo branco revelam um impulso paradoxal o desejo de pureza em meio à podridão da guerra. É a tentativa inconsciente de preservar uma inocência que ela sabe perdida, mas que insiste em procurar.
O reencontro com Galeya, no trono do Arco do Poder, é o ponto de rendição. A filha se lança nos braços da mãe, e o grito que explode não é apenas dor, mas libertação. A esfera de energia que brota dela simboliza o transbordamento daquilo que nem o corpo, nem a mente, podiam mais conter. É o instante em que a divindade se encontra com o humano, e a fragilidade torna-se força.
No final, quando adormece nos braços da deusa e é levada à torre da irmã, há algo de profundamente "humano" em Glymoria. Por um breve instante, a princesa das sombras repousa como uma criança exaurida da própria grandeza. O silêncio de Zaryr, o toque da mãe, e a paz momentânea que se instala são o eco de uma verdade dolorosa: mesmo os seres mais poderosos precisam, às vezes, ser apenas acolhidos.
Este capítulo não fala apenas de batalhas, mas do instante em que o poder se curva diante daquilo que o sustenta o coração. Glymoria, ainda sem entender, começa a se ver não como a filha da fúria, mas como o espelho daquilo que Galeya teme e ama: a "humanidade" que lateja por baixo da deusa que ela está destinada a se tornar.
capitulo do conto: "As Filhas de Galeya"



Comentários