O Vazio de Glymoria (fase menina).
- Christian Sergi Sergi
- 11 de out. de 2025
- 2 min de leitura

Glymoria é um enigma. Não apenas por sua origem não humana, mas por ser o reflexo mais extremo de uma contradição: o rosto angelical, quase albino, onde a delicadeza se confunde com o silêncio, abriga uma alma incapaz de sentir. Não há ternura em seu olhar, nem sombra de emoção em seus gestos. Ela existe como uma presença fria, uma chama que arde sem calor, e sua beleza, tão rara e perfeita, apenas acentua o abismo que nela se instala.Aqueles que a contemplam acreditam vislumbrar pureza, talvez inocência. Mas este é o grande engano: Glymoria não conhece amor, nem compaixão, nem desejo.
Seu coração, se assim se pode chamar, é uma câmara vazia onde nenhuma emoção repousa. O que nela parece fragilidade é, na verdade, indiferença; e aquilo que poderia ser bondade nunca chega a nascer, pois a própria ideia de sentir lhe é estranha.Ainda assim, Glymoria é amada. Galeya, sua mãe, e Zaryr, sua irmã, ofertam-lhe um amor incondicional, quase desesperado, como se quisessem desafiar os limites de sua natureza. Elas morreriam por ela, mesmo sabendo que esse sacrifício não despertaria lágrimas, nem gratidão.
É o mais cruel dos paradoxos: amar quem não pode amar de volta, nutrir esperança em um coração que jamais florescerá. E, ainda assim, o amor delas persiste, como se a obstinação pudesse subverter o destino.Glymoria não mata por prazer, tampouco por ódio. Ela mata porque é de sua essência fazê-lo. Pequenas criaturas sucumbem em suas mãos frágeis, não para alimentar sadismo, mas porque a vida, para ela, não tem valor algum. O sofrimento alheio não lhe pesa, assim como a alegria não lhe toca.
Ela cumpre sua natureza como as estrelas cumprem o curso no céu: inevitável, indiferente, silenciosa. Ao observá-la, percebo que Glymoria não é apenas uma personagem de destino trágico; ela é a personificação do que mais tememos: a beleza que não sente, a perfeição que não ama, o olhar que não devolve humanidade. Sua presença nos lembra que nem toda flor exala perfume e que a luz, às vezes, pode ser apenas reflexo de gelo.Talvez sua maior tragédia não seja a indiferença, mas o fato de ser alvo de um amor que jamais poderá corresponder.
Porque, no fim, Glymoria não escolhe: ela apenas cumpre o chamado daquilo que sempre foi. E talvez sua história seja menos sobre o que ela é e mais sobre aqueles que ousaram amá-la, mesmo diante do impossível.



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